A Igreja Entre o Reino e o Kosmos: Da “Subversão” de Jesus ao Momento Brasileiro

Por Wilson Bonfim

No Brasil contemporâneo, assistimos a uma deflagração crescente entre pessoas — inclusive entre cristãos — motivada por posicionamentos religiosos e políticos. Igrejas e comunidades que antes se reuniam em torno do evangelho começam a se digladiar por causa de posições partidárias.

Líderes de destaque, de diferentes espectros, tornam-se referências não apenas espirituais, mas também políticas, e o espaço eclesiástico passa, com frequência, a funcionar como palco de disputa ideológica.

Este artigo não pretende negar a qualquer cidadão brasileiro o direito de falar, opinar e participar da vida política do país. Esse direito existe e deve ser preservado e eu mesmo participo ativamente no X. O que se busca aqui é examinar, à luz da história e das Escrituras, se a utilização da igreja como espaço privilegiado de discussão e alinhamento político — e, sobretudo, as brigas entre irmãos que daí decorrem — corresponde à visão que Jesus trouxe ao mundo.

Muitos cristãos hoje parecem estar quase atrás de um novo céu e uma nova terra criados aqui mesmo, em nome de Deus, como se isso fosse possível de se realizar apenas por meio da política e da conquista de poder. A tentativa deste artigo é perguntar, com honestidade, se foi isso que Jesus quis e ensinou.

O que se segue é uma tentativa de reunir os fundamentos bíblicos e históricos que ajudam a discernir essa diferença — não para calar a voz dos cristãos na sociedade, mas para preservar a identidade da igreja e a comunhão entre irmãos.

Contexto Histórico: Israel sob Roma e o Ambiente do Surgimento da Igreja

Antes de examinar como o Novo Testamento retrata as autoridades (incluindo politicos)e os justos, é necessário situar o cenário geopolítico em que a igreja nasceu. Esse cenário se desenvolve em três momentos principais: o período em torno de Jesus (igreja primitiva nascente), o período de Atos dos Apóstolos e o restante do primeiro século. Em nenhum desses momentos o ambiente foi favorável à criação de uma religião organizada cristã.

A Conquista Romana e a Estrutura de Poder em Israel

Em 63 a.C., o general romano Pompeu interveio nas disputas internas da dinastia hasmoneia e conquistou Jerusalém. A partir daí, a Judeia deixou de ser um reino independente e passou a integrar a esfera de influência romana. Roma não governava diretamente em todos os lugares da mesma forma, mas exercia o controle último sobre a região.

Herodes, o Grande (37–4 a.C.), foi nomeado rei dos judeus por Roma. Embora fosse idumeu e impopular entre muitos judeus, ele reconstruiu o Templo e manteve relativa estabilidade por meio de aliança com o poder imperial. Após sua morte, o território foi dividido entre seus filhos (tetrarquias). Arquelau governou a Judeia de forma tão ruim que, em 6 d.C., Roma o depôs e passou a administrar a Judeia diretamente por meio de prefeitos (depois procuradores) romanos, subordinados ao governador da Síria. Entre eles esteve Pôncio Pilatos (26–36 d.C.).

Nesse arranjo:

  • Os reis e tetrarcas (como Herodes Antipas na Galileia) governavam com autorização romana e precisavam manter a ordem e o pagamento de tributos.
  • Os sumos sacerdotes e o Sinédrio conservavam autoridade religiosa e alguma jurisdição interna, mas o cargo de sumo sacerdote era fortemente influenciado (e muitas vezes nomeado ou deposto) pelo poder romano. Famílias como a de Anás e Caifás mantinham o posto por meio de cooperação com Roma.
  • Os publicanos (cobradores de impostos) eram judeus ou colaboradores locais que arrecadavam tributos para o sistema romano. Por isso eram socialmente desprezados: representavam a presença concreta do dominador e, frequentemente, praticavam extorsão.
  • Oficiais e soldados romanos viviam na região como representantes do imperador, garantindo a Pax Romana — uma paz imposta pela força militar, não fruto de consenso.

História – As Autoridades no Período do Novo Testamento

O Período de Jesus

Jesus exerceu seu ministério principalmente na Galileia (sob Herodes Antipas) e na Judeia (sob administração romana direta). As autoridades religiosas judaicas (fariseus, saduceus, escribas e o Sinédrio) operavam dentro dos limites permitidos por Roma. Qualquer movimento que ameaçasse a ordem pública podia ser reprimido tanto pelas autoridades judaicas quanto pelas romanas. A crucificação de Jesus ilustra essa cooperação: o Sinédrio o entrega a Pilatos, que o condena por razões políticas, embora reconheça sua inocência.

Nesse período não havia espaço institucional para uma nova religião organizada. O judaísmo do Templo e do Sinédrio controlava a vida religiosa autorizada, e Roma tolerava o judaísmo como religio licita precisamente porque ele era antigo e relativamente contido. Um movimento centrado em um crucificado, que anunciava outro Rei e outro Reino, não contava com proteção legal nem com estruturas próprias.

O Período de Atos e o Primeiro Século

Após a ressurreição e o Pentecostes, a igreja nasce em Jerusalém ainda sob o mesmo arranjo político-religioso. Nos primeiros capítulos de Atos, a perseguição vem principalmente das autoridades judaicas (açoites, prisões, proibição de falar em nome de Jesus). Com a expansão para o mundo gentio, a igreja passa a enfrentar também o sistema imperial.

Ao longo do primeiro século, os imperadores (Tibério, Calígula, Cláudio, Nero e sucessores) consolidam o culto imperial. Recusar honras divinas ao imperador torna-se cada vez mais problemático. Em 70 d.C., a revolta judaica culmina com a destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos — evento que marca profundamente tanto o judaísmo quanto a igreja, que já se distinguia dele.

Em todo esse período, a igreja surge e se desenvolve sem poder institucional próprio e em ambiente hostil. Ela não controla reis, sacerdotes nem o aparato romano. Não possui templos oficiais, reconhecimento legal como religião organizada nem proteção do Estado. Vive sob um império que se considera portador de ordem e de “boas novas” (euangelion), e sob uma liderança religiosa judaica que, em grande parte, havia se acomodado à presença romana para preservar sua posição. É nesse ambiente de dominação externa, colaboração interna, ausência de democracia e falta de condições favoráveis à institucionalização que a comunidade cristã começa a existir como grupo distinto — nem identificado com o poder romano, nem plenamente aceito pelas instituições religiosas judaicas.

Como a Bíblia Relata Autoridades

Principais Autoridades e Como São Descritas

  • Lideranças religiosas judaicas (fariseus, saduceus, escribas, sumos sacerdotes e Sinédrio): São o grupo mais criticado. Jesus as chama repetidamente de hipócritas, cegos, sepulcros caiados, que sobrecarregam o povo com regras mas não vivem o que pregam (Mateus 23 é o discurso mais duro). Muitos buscavam honra pública, lugares de destaque e controle, e acabaram conspirando contra Jesus por verem nele uma ameaça ao próprio poder e status. Nem todos eram iguais: há exceções como Nicodemos, José de Arimateia e, em parte, Gamaliel, que aparecem de forma mais positiva ou aberta.
  • Autoridades políticas (Herodes Antipas, Pilatos, o sistema romano): Herodes é mostrado como alguém que matou João Batista e zombou de Jesus. Pilatos reconhece a inocência de Jesus, mas o condena por pressão política e medo de tumulto. O Império Romano aparece como poder ocupante; Jesus não o idealiza, mas distingue o que é de César do que é de Deus (“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” – Mateus 22:21).
  • Outros: Há romanos e oficiais retratados com mais respeito ou fé (o centurião de Mateus 8, Cornélio em Atos 10). Esses casos são exceções, não a regra.

A Bíblia (principalmente os Evangelhos) não apresenta as autoridades da época de Jesus como “boas” de modo geral. A maioria das lideranças religiosas e políticas é retratada de forma crítica — frequentemente como hipócritas, voltadas ao poder, ao status e aos interesses mundanos, ou em oposição a Jesus.

O Que a Bíblia Ensina Sobre Autoridades em Geral

Há textos que falam de submissão às autoridades constituídas (Romanos 13:1-7; 1 Pedro 2:13-17), apresentando-as como instituídas por Deus para manter a ordem. Esses trechos são mais gerais e posteriores; não significam que as autoridades específicas da época de Jesus eram boas ou justas. O próprio Jesus e os apóstolos enfrentaram e criticaram autoridades corruptas quando elas se opunham à vontade de Deus.

Em resumo: o retrato bíblico das autoridades no tempo de Jesus é predominantemente crítico — muitas são descritas como mundanas, hipócritas ou orientadas ao poder. A Bíblia não as apresenta como modelo de bondade, embora reconheça a necessidade de ordem e deixe espaço para indivíduos justos dentro das estruturas.

Os Justos nos Evangelhos

As estruturas de poder (religioso e político) aparecem majoritariamente como injustas, hipócritas ou comprometidas com interesses mundanos. Os justos são poucos, e quase sempre estão fora ou nas margens dessas estruturas.

Pessoas Já Reconhecidas Como Justas Antes de Jesus

  • Zacarias e Isabel (pais de João Batista): Lucas 1:5-6 os descreve explicitamente como “ambos justos diante de Deus, andando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor”. Eram sacerdotes, mas viviam com integridade real, não com o formalismo criticado depois.
  • José (esposo de Maria): Mateus 1:19 o chama de “justo”. Quando descobre a gravidez de Maria, pensa em repudiá-la em segredo para não a expor à vergonha — mostra justiça misturada com misericórdia.
  • Simeão: Lucas 2:25 o apresenta como “justo e piedoso”, que esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo o guiou ao Templo para ver o menino Jesus.
  • Ana (a profetisa): Lucas 2:36-38. Viúva idosa que não saía do Templo, servia a Deus com jejuns e orações dia e noite, e reconheceu o menino Jesus.

João Batista

O maior exemplo de justiça profética da época. Jesus o chama de “o maior entre os nascidos de mulher” (Mateus 11:11). Vivia com austeridade, pregava arrependimento, denunciava a imoralidade de Herodes e a hipocrisia das autoridades religiosas, e preparou o caminho para Jesus. Morreu por isso.

Justos Dentro das Estruturas (Exceções)

  • Nicodemos: Fariseu e membro do Sinédrio. Foi a Jesus de noite (João 3), defendeu-o no Sinédrio (João 7:50-51) e depois ajudou no sepultamento (João 19:39). É o tipo de justo que reconhece a verdade mesmo estando dentro do sistema.
  • José de Arimateia: Também membro do conselho, mas Lucas 23:50-51 o descreve como “homem bom e justo”, que não tinha consentido com a decisão contra Jesus e esperava o Reino de Deus. Pediu o corpo de Jesus a Pilatos.

Outros com Fé Notável

  • O centurião romano (Mateus 8 / Lucas 7): Jesus se admira da fé dele e diz que não achou tanta fé nem em Israel. Um gentio e autoridade militar que reconhece a autoridade de Jesus.
  • Zaqueu (Lucas 19): Chefe dos publicanos (cobradores de impostos, grupo desprezado). Após o encontro com Jesus, restitui o que roubou e dá metade dos bens aos pobres. Jesus declara que “hoje veio a salvação a esta casa”.
  • As mulheres que seguiam Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana e outras (Lucas 8:1-3). Sustentavam o ministério com seus bens e permaneceram fiéis até a cruz e a ressurreição, enquanto a maioria dos discípulos fugiu.

Observação Geral dos Evangelhos

Os justos dessa época não são, em geral, as pessoas ligadas ao poder. São pessoas que temiam a Deus, esperavam o Messias, viviam com integridade ou reconheciam Jesus quando o encontravam — mesmo sendo pobres, marginalizados, estrangeiros ou, em raros casos, membros das estruturas que se recusaram a compactuar com a injustiça.

O contraste é deliberado nos Evangelhos: a justiça verdadeira não estava concentrada nas autoridades, e sim em pessoas simples ou em raras exceções dentro do sistema.

Os Justos no Período Apostólico

Na época de Paulo e dos apóstolos (Atos e as cartas), o Novo Testamento continua mostrando que os justos eram, em geral, pessoas de fé e integridade — muitas vezes fora das estruturas de poder ou em tensão com elas. Ao mesmo tempo, há a orientação clara de orar por todas as autoridades.

Figuras Centrais do Ministério Apostólico

  • Barnabé: Chamado de “homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (Atos 11:24). Generoso, encorajador, companheiro de Paulo na primeira viagem missionária.
  • Estêvão: O primeiro mártir. Atos 6:5,8 o descreve como “cheio de fé e do Espírito Santo”, cheio de graça e poder. Seu discurso e morte mostram firmeza e perdão.
  • Filipe (o evangelista): Um dos sete diáconos, que pregou em Samaria e batizou o eunuco etíope (Atos 8). Depois hospedou Paulo em Cesareia (Atos 21).
  • Áquila e Priscila: Casal fiel que arriscou a vida por Paulo (Romanos 16:3-4). Ensinaram Apolo com precisão e abriram a casa para a igreja.
  • Timóteo, Tito, Silas e Lucas: Colaboradores próximos de Paulo, descritos como fiéis, dedicados e confiáveis no ministério.

Pessoas Que Reconheceram a Fé

  • Cornélio (centurião romano): Atos 10:2 o apresenta como “piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus”. Foi o primeiro gentio claramente aceito na igreja.
  • Lídia (vendedora de púrpura em Filipos): Abriu o coração à mensagem e hospedou Paulo e seus companheiros (Atos 16:14-15).
  • Os bereanos: Elogiados por serem “mais nobres” que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com avidez e examinaram as Escrituras diariamente (Atos 17:11).
  • Apolo: Eloquente, poderoso nas Escrituras e fervoroso de espírito (Atos 18:24-25). Depois de ser instruído por Áquila e Priscila, tornou-se grande cooperador.

Outros Mencionados nas Cartas

Paulo nomeia várias pessoas como fiéis e justas no serviço: Febe (diácona de Cencreia), Epafrodito, Onésimo (após a conversão), Epafras, Filemom, e vários membros das igrejas que sustentavam o ministério com generosidade e fidelidade.

A Tensão Com as Autoridades e a Ordem de Orar

As autoridades continuam, em grande parte, hostis ou indiferentes. Paulo e os apóstolos enfrentaram prisões, açoites, processos e perseguição (especialmente sob Nero no final da vida de Paulo). Mesmo assim, o ensino é explícito:

  • Orar por todas as autoridades: “Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em posição de autoridade” (1 Timóteo 2:1-2).
  • Submeter-se às autoridades constituídas (Romanos 13:1-7; 1 Pedro 2:13-17), reconhecendo que a ordem civil existe por permissão de Deus, mesmo quando os governantes são injustos.

Em resumo: os justos dessa época são principalmente os que creram em Jesus, viveram com integridade e serviram ao evangelho — muitos deles simples, alguns dentro das estruturas (como Cornélio), e poucos nas altas esferas de poder. A Bíblia não idealiza as autoridades, mas ordena oração por elas e respeito à ordem, independentemente de serem justas ou não.

O Reino de Deus e a Distinção do Kosmos

A análise teológica mostra que a igreja contemporânea (especialmente no Brasil, no meio da polarização política) em grande medida abandonou a missão de apontar para o Reino e passou a operar com as categorias, narrativas e instrumentos do “mundo”. Isso dilui a tensão que o Novo Testamento mantém entre Igreja e mundo, e faz a igreja perder o seu objetivo.

1. O Reino que não é deste mundo

Jesus foi explícito diante de Pilatos:”O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos pelejariam… Agora, porém, o meu reino não é daqui.” (João 18:36)

O Reino de Deus é a realidade governada pela vontade de Deus (Mateus 6:10 – “venha o teu reino, seja feita a tua vontade”). Ele invade a história, mas não se identifica com nenhum poder, partido, sistema ou nação deste século. A igreja não é o Reino; ela é o povo que foi chamado para anunciar e viver as boas-novas do Reino (Mateus 4:23; 9:35; 24:14; Atos 1:3; 8:12; 28:31).

Quando a igreja entra no discurso de poder do mundo (seja de direita ou de esquerda), ela deixa de ser sinal e passa a ser mais uma facção do próprio mundo.

2. O que é “o mundo” (κόσμος / kosmos) no Novo Testamento

“Mundo” (kosmos) no NT tem vários sentidos, mas o mais relevante para essa discussão é o sistema de valores, poder e pensamento organizado em oposição a Deus:

  • 1 João 2:15-17: não amar o mundo nem o que nele há (concupiscência da carne, dos olhos e soberba da vida).
  • João 15:18-19 e 17:14-16: o mundo odeia os discípulos porque eles não são do mundo, assim como Jesus não é.
  • Tiago 4:4: amizade com o mundo é inimizade contra Deus.
  • 1 Coríntios 1:20–2:16: a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus; o Espírito revela o que o “homem natural” não pode compreender.

Outros termos teológicos fundamentais:

  • οἰκουμένη (oikoumenē): a terra habitada, frequentemente o mundo civilizado conhecido (especialmente o Império Romano). Aparece em Lucas 2:1 (“todo o mundo”), Atos 17:31, Hebreus 1:6, etc. Não é o “mundo” no sentido ético-teológico de kosmos, mas o espaço geográfico-político onde o evangelho deve ser anunciado.
  • οἶκος (oikos): casa, família, lar. Usado para a igreja como “casa de Deus” (1 Timóteo 3:15; 1 Pedro 2:5; 4:17) e para a ideia de oikonomia (administração/economia da casa). A igreja é a família de Deus no meio da oikoumenē.

A distinção é importante: o cristão vive na oikoumenē (o mundo habitado), mas não pertence ao kosmos (o sistema oposto a Deus).

3. Como a igreja aponta para o Reino

Não é primariamente por discurso político, ocupação de poder ou adesão a narrativas partidárias. É por:

  • Atitudes e comportamento que manifestam a lógica do Reino (Mateus 5–7: bem-aventuranças, amor ao inimigo, não resistir ao mau, pureza, misericórdia, humildade).
  • Proclamação do evangelho (as boas-novas do Reino), não de programas políticos.
  • Vida comunitária que funciona como sinal (Atos 2:42-47; 4:32-35; João 13:34-35 – “nisto conhecerão que sois meus discípulos”).
  • Recusa em usar as armas e categorias do mundo (2 Coríntios 10:3-5: nossas armas não são carnais; Romanos 12:2: não se conformar com este século).

Jesus chamou uma igreja que trouxesse boas-novas. Quando ela adota a gramática do poder, da polarização e da identidade tribal, ela deixa de ser luz e sal e passa a ser mais um grupo de interesse.

4. A perda da tensão e o resultado atual

O Novo Testamento vive em tensão permanente: “no mundo, mas não do mundo” (João 17). Essa tensão foi em grande parte perdida. Muitos cristãos hoje:

  • Usam as categorias de pensamento do mundo (poder, vitória eleitoral, inimigo político, narrativa de salvação nacional) em vez das categorias do Reino (cruz, serviço, perdão, esperança escatológica).
  • Identificam a causa do Reino com um lado político.
  • Medem sucesso por influência cultural ou eleitoral, não por fidelidade ao evangelho e transformação de vidas.

O resultado é uma igreja que perde o seu objetivo missionário e se torna irrelevante ou hostil para quem não compartilha a mesma bandeira política.

5. Fundamento para oração e postura prática

Mesmo reconhecendo que autoridades podem ser injustas (como na época de Jesus e de Paulo), o NT ordena oração por elas (1 Timóteo 2:1-2) e submissão na medida do possível (Romanos 13; 1 Pedro 2). A postura do Reino não é de adesão acrítica nem de guerra cultural permanente; é de testemunho fiel, denúncia profética quando necessário, e recusa de ser cooptada.

O Caráter “Subversivo” da Igreja Primitiva

Esse contraponto é essencial e precisa ser reassumido. A igreja primitiva nasce e cresce em um ambiente estruturalmente hostil — tanto no judaísmo quanto no Império Romano — e justamente por isso o seu caráter subversivo (não no sentido de revolução armada, mas de não-pertencimento ao sistema) fica evidente. Quando a igreja atual se integra ao sistema político e às narrativas de poder, ela inverte essa lógica: deixa de ser portadora do euangelion de Jesus e passa a legitimar o reinado de homens em nome de Deus.

O Ambiente Desfavorável da Igreja Primitiva

  1. No meio religioso judaico: Jesus é judeu, rabino, e se apresenta dentro das categorias de Israel (Messias, Reino de Deus, cumprimento das Escrituras). Mesmo assim, é rejeitado pelas autoridades religiosas (fariseus, saduceus, sumos sacerdotes e Sinédrio). A igreja nascente herda essa rejeição: é vista como seita, perseguida em Jerusalém, e os apóstolos são açoitados e proibidos de falar em nome de Jesus (Atos 4–5). Não há “espaço institucional” favorável.
  2. No ambiente imperial romano (a “geopolítica” da época): Israel é território conquistado. A Pax Romana não é democracia nem paz voluntária; é paz imposta pela força militar, tributos e controle político.
  • O imperador é apresentado como figura divina ou quase-divina (culto imperial). Recusar o culto ao imperador era considerado deslealdade ao Estado.
  • O termo euangelion (εὐαγγέλιον) já existia no mundo greco-romano. Era usado para anunciar “boas novas” oficiais do império: vitórias militares, nascimento ou ascensão de um imperador, decretos de paz ou benefícios. A inscrição de Priene (cerca de 9 a.C.), por exemplo, celebra o nascimento de Augusto como o início de “boas novas” (euangelia) para o mundo.
  • Jesus e os apóstolos tomam esse termo e o redefinem radicalmente: o euangelion verdadeiro não é a boa nova do César, mas a de que o Reino de Deus chegou em Jesus Cristo (Marcos 1:14-15; Romanos 1:1-4). Dizer “Jesus é o Senhor” (Kyrios Iēsous) era, no contexto romano, uma declaração politicamente carregada, porque o título Kyrios também era aplicado ao imperador.

O Caráter Subversivo da Igreja Primitiva

A igreja não pertencia às instituições do judaísmo oficial nem ao sistema imperial. Ela formava uma comunidade alternativa:

  • Recusava o culto ao imperador e as lealdades absolutas exigidas pelo Estado.
  • Anunciava um Rei cujo Reino não é deste mundo (João 18:36), mas que já estava presente e viria em plenitude.
  • Vivia uma ética e uma economia interna diferentes (compartilhamento de bens em Atos 2 e 4, amor aos inimigos, recusa da vingança).
  • Sofria perseguição exatamente porque não se encaixava no kosmos (o sistema organizado em oposição a Deus).

Ela não buscava “tomar o poder” para implantar o Reino por meios políticos ou militares. Era subversiva porque existia como sinal de outra ordem no meio da ordem imperial.

O Contraste com a Situação Atual

Hoje, em contextos democráticos (ou semi-democráticos), a tentação é o oposto: a igreja entra no sistema, adota as categorias de esquerda/direita, e passa a medir sucesso por influência eleitoral, ocupação de espaços de poder ou vitória cultural. Quando isso acontece:

  • O euangelion deixa de ser a boa nova do Reino e se torna a boa nova de um projeto político.
  • A igreja deixa de ser comunidade alternativa e se torna parte das instituições e narrativas do mundo.
  • A tensão “no mundo, mas não do mundo” (João 17:14-16) desaparece.

O resultado não é “Deus reinando”, mas homens reinando e usando o nome de Deus para legitimar o próprio poder, a própria tribo e os próprios interesses.

O contraponto que precisa ser reassumido é exatamente este: a igreja é portadora do evangelho de Jesus, não de qualquer euangelion imperial (antigo ou moderno). Sua subversão não está em conquistar o Estado, mas em recusar ser absorvida por ele e em viver, de forma visível, a lógica do Reino — mesmo quando isso a coloca em desvantagem diante do poder, seja ele de direita ou de esquerda.

Síntese Teórica e Teológica

  1. O Reino e a missão da igreja: Jesus declara diante de Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36). O Reino de Deus é a realidade em que a vontade de Deus é feita (Mateus 6:10). Ele já irrompeu na história em Jesus e será consumado na sua volta. A igreja não é o Reino, mas o povo chamado para anunciar as boas-novas, viver visivelmente sua lógica e apontar para ele por meio do testemunho.
  2. O “mundo” (κόσμος) e os termos relacionados:
  • kosmos: O sistema ético-espiritual hostil a Deus.
  • oikoumenē: A terra habitada / o mundo conhecido (espaço geográfico-político).
  • oikos: Casa, família (a igreja como casa de Deus).
  1. O contexto da igreja primitiva: A comunidade nascente viveu em ambiente hostil e manteve caráter subversivo, confrontando as reivindicações imperiais com a confissão de que “Jesus é o Senhor”.
  2. Autoridades e justos nas narrativas do Novo Testamento: O retrato das autoridades é predominantemente crítico, enquanto os justos são minoria fora do poder. A Bíblia ordena oração pelas autoridades e submissão à ordem civil.
  3. A inversão contemporânea: A fusão com a política substitui o euangelion do Reino por projetos humanos de poder.

Aplicação ao Momento Atual Brasileiro

A Inversão da Postura

Hoje a igreja opera, em larga escala, dentro das categorias e narrativas do mundo. Em vez de manter a tensão “no mundo, mas não do mundo” (João 17:14-16), ela se identifica com projetos de poder e passa a medir relevância por influência política, ocupação de espaços institucionais ou vitória cultural. O resultado prático é que o Reino deixa de ser o critério e passa a ser instrumentalizado.

Isso aparece com clareza na polarização brasileira:

  • De um lado, segmentos significativos da igreja abraçam narrativas de direita como se fossem expressão do Reino, tratando vitória eleitoral, combate a certos inimigos culturais e ocupação de cargos como avanço do evangelho.
  • Do outro lado, outros segmentos aderem a narrativas de esquerda com a mesma lógica: justiça social, combate a “opressores” e políticas específicas são apresentados como realização do Reino.

Em ambos os casos, as categorias de pensamento são as do mundo: amigo/inimigo político, poder como meio principal, identidade tribal, narrativa de salvação nacional ou de transformação estrutural por vias estatais. A gramática do Reino (cruz, serviço, perdão, esperança escatológica, não-conformidade com este século — Romanos 12:2) fica em segundo plano.

Consequências Observáveis

  • Perda do euangelion: O anúncio deixa de ser primariamente “o Reino de Deus chegou e Jesus é o Senhor” e passa a ser “nosso lado precisa vencer”. O evangelho é subordinado à causa política. Precisamos lembrar que a Igreja não é o Reino, mas aponta para ele.
  • Desaparecimento da tensão: A estranheza profética da igreja primitiva dá lugar à aliança com polos de poder.
  • Uso das armas do mundo: Substituição das armas espirituais (2 Coríntios 10:4) por confronto cultural, desqualificação e busca de hegemonia.
  • Autoridades e justos: A ordem de orar por todas as autoridades (1 Timóteo 2:1-2) é frequentemente substituída por adesão ou demonização seletiva.

O Que Seria Reassumir o Contraponto

Reassumir a postura da igreja primitiva não significa apoliticismo ingênuo nem fuga da realidade. Significa:

  • Manter o Reino como critério absoluto, recusando identificar qualquer projeto político (de direita ou de esquerda) com o Reino de Deus.
  • Anunciar e viver o euangelion de Jesus de forma a confrontar tanto as idolatrias do poder conservador quanto as do poder progressista.
  • Formar comunidades que funcionem como sinal alternativo — pela ética, pela economia interna, pelo tratamento do inimigo e pela recusa do ódio.
  • Aceitar que essa postura pode gerar marginalização ou incompreensão de ambos os lados.

O Reino e o Fim (Escatologia)

O Reino de Deus anunciado por

Jesus proclama que o Reino já está próximo e, em certo sentido, presente (Marcos 1:15; Mateus 12:28; Lucas 17:21). Ao mesmo tempo, ensina a orar “venha o teu reino” (Mateus 6:10) e aponta para uma consumação futura: a volta do Filho do Homem, a ressurreição, o juízo e os novos céus e nova terra. O Reino é, portanto, “já e ainda não”. Ele irrompe na história pela pessoa e pela obra de Jesus — especialmente pela cruz e pela ressurreição —, mas não se consuma dentro das estruturas deste aiōn. Sua plenitude pertence ao século vindouro.

Essa perspectiva se distingue tanto das expectativas judaicas predominantes no período do Segundo Templo quanto da escatologia islâmica:

  • No judaísmo da época: Esperava-se uma restauração nacional e política de Israel. Jesus redefine essa esperança, mostrando que o Reino transcende fronteiras étnico-políticas e não se estabelece pela força armada.
  • No Islã: O fim foca no Dia do Juízo (Yawm al-Qiyamah), sem um Reino já inaugurado na história por um Messias crucificado e ressuscitado.

Enquanto esperamos a plenitude dos tempos, cada cristão é chamado a representar a igreja por seus valores, fé e integridade onde quer que esteja — inclusive em estruturas políticas ou profissionais. Como ensina Paulo em 1 Coríntios 7:17-24, cada um deve permanecer na condição em que foi chamado, agindo como alguém cuja lealdade última pertence a Cristo.

O Reino de Deus anunciado por Jesus não é apenas uma realidade ética ou comunitária presente; ele possui uma dimensão escatológica decisiva. Jesus proclama que o Reino já está próximo e, em certo sentido, presente (Marcos 1:15; Mateus 12:28). Ao mesmo tempo, ensina a orar “venha o teu reino” e aponta para uma consumação futura. O Reino é “já e ainda não”.
Enquanto esperamos a plenitude dos tempos e a consumação do Reino, cada pessoa é chamada a trabalhar e a viver de modo coerente com essa esperança. O cristão, onde quer que esteja — inclusive em estruturas políticas, profissionais ou sociais —, precisa representar a igreja ali pelos seus valores, pela fé e pela integridade. Não se trata de transformar a política na história da igreja, nem a história da igreja na história do Reino. A história da igreja não é a história do Reino, e a política não é a história da igreja. O Reino permanece critério e horizonte; a igreja é sinal e testemunha; a política é uma das esferas da oikoumenē onde esse testemunho pode ocorrer.
Paulo expressa essa lógica em 1 Coríntios 7:17-24: cada um deve permanecer na condição em que foi chamado. O circunciso não deve desfazer a circuncisão; o escravo, se pode tornar-se livre, aproveite, mas mesmo na condição de escravo pode viver como liberto do Senhor; e, de modo geral, “cada um permaneça diante de Deus na condição em que foi chamado”. O princípio se aplica às estruturas em que os cristãos se encontram hoje, inclusive as políticas: não é necessário (nem sempre possível) abandoná-las, mas é necessário permanecer nelas como alguém que pertence a outro Rei. O soldado permanece soldado, o cidadão permanece cidadão, o servidor público permanece servidor — porém todos como pessoas cuja lealdade última é a Cristo e cujo modo de agir manifesta o euangelion.
Por isso, a posição da igreja e do cristão não pode ser a de demonizar os outros. Demonizar o adversário político é adotar a gramática do kosmos. A tarefa é trazer as boas-novas — o euangelion do Reino — até que Ele venha. Isso inclui denúncia do que é injusto, quando necessário, mas sempre a partir da lógica da cruz, do perdão e do amor ao próximo e ao inimigo, e não a partir da lógica da guerra cultural permanente.
Essa escatologia protege a igreja de duas ilusões: a de que nada pode ser vivido agora, e a de que o novo céu e a nova terra podem ser construídos aqui apenas por meios políticos. Enquanto espera a consumação que somente Deus realizará, a igreja é chamada a ser sinal presente do Reino — pela vida, pela integridade e pelo anúncio do evangelho — em todas as esferas, sem confundir nenhuma delas com o próprio Reino.

Até que Ele venha!

Bibliografia e Glossário de Termos

Quem Eram os Tetrarcas?

Tetrarca (do grego tetrarchēs, “governante de uma quarta parte”) era o título dado a um governante que administrava uma porção de um território maior sob autoridade romana:

  • Herodes Antipas: Tetrarca da Galileia e Pereia (4 a.C. – 39 d.C.). Mandou decapitar João Batista e participou do julgamento de Jesus.
  • Filipe (Herodes Filipe II): Tetrarca da Itureia e Traconites (4 a.C. – 34 d.C.).
  • Arquelau: Etnarca da Judeia, Samaria e Idumeia (4 a.C. – 6 d.C.), deposto por Roma devido à sua brutalidade.

Tabela de Termos Gregos para “Mundo”

Palavra GregaSentido PrincipalTom no Novo Testamento
kosmosSistema / ordem do mundo em oposição a DeusFrequentemente negativo
oikoumenēTerra habitada / mundo conhecidoNeutro / geográfico
aiōnSéculo / era / ordem deste tempo presenteFrequentemente negativo
gēTerra (física / planeta)Neutro

Comparação: Escatologia no NT, Judaísmo e Islã

AspectoJesus / NTJudaísmo (Segundo Templo)Islã
Natureza do ReinoJá presente e futuro (“já e ainda não”)Principalmente futuro (restauração nacional)Futuro (Dia do Juízo Final)
Figura CentralJesus como Messias, Rei e Filho de DeusMessias davídico humanoAllah; Jesus (Isa) como profeta
Meio de RealizaçãoCruz, ressurreição e atuação do EspíritoIntervenção divina e observância da ToráJuízo de Allah e retorno profético
Dimensão PolíticaNão deste mundo; sem conquista militarRestauração político-nacional de IsraelEstabelecimento da justiça islâmica
Destino FinalNovos céus e nova terraOlam ha-ba (mundo vindouro)Jannah (Paraíso) ou Jahannam (Inferno)

Bibliografia organizada

1. Reino de Deus e escatologia inaugurada (“já e ainda não”)

  • George Eldon Ladd, The Presence of the Future: The Eschatology of Biblical Realism. Eerdmans.
    Referência clássica da escatologia inaugurada.
  • Anthony A. Hoekema, The Bible and the Future. Eerdmans, 1979.
  • Oscar Cullmann, Christ and Time.
  • Textos bíblicos centrais: Marcos 1:15; Mateus 12:28; Lucas 17:21; Mateus 6:10; 1 Coríntios 15:24-28; Apocalipse 21.

2. Expectativas messiânicas judaicas (Segundo Templo)

  • Salmos de Salomão 17 (Messias davídico).
  • Manuscritos do Mar Morto: Regra da Comunidade (1QS 9:11); Documento de Damasco.
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas e Guerra Judaica.
  • John J. Collins, The Scepter and the Star: Messianism in Light of the Dead Sea Scrolls.
  • Visão geral: Britannica – Eschatology (Judaism)

3. Escatologia islâmica

4. 1 Coríntios 7:17-24 (permanecer na condição em que foi chamado)

  • Texto bíblico: 1 Coríntios 7:17-24.
  • Comentários recomendados: Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (NICNT); Anthony C. Thiselton, The First Epistle to the Corinthians (NIGTC).
  • Exposições:

5. Euangelion e o contexto imperial (Inscrição de Priene)

  • Inscrição do Calendário de Priene (c. 9 a.C.).

6. Contexto histórico: Herodes, tetrarcas e etnarca

7. Obras gerais de apoio

  • N. T. Wright, Jesus and the Victory of God e The New Testament and the People of God (contexto do Reino e do judaísmo do Segundo Templo).
  • Richard Bauckham, trabalhos sobre o contexto judaico e a escatologia do Novo Testamento.

Obrigado/thanks