Futebol, religião e política não se discutem:O radicalismo da web

A radicalização da sociedade contemporânea é um fenômeno amplamente discutido, especialmente quando se analisa a influência dos algoritmos das redes sociais. Esses sistemas, projetados para maximizar o engajamento dos usuários, têm contribuído significativamente para a criação de uma sociedade polarizada, onde a dualidade e os extremos prevalecem, promovendo um comportamento ilógico e emocional em vez de racional.

A religião, o futebol e, mais recentemente, a política, tornaram-se campos férteis para esse processo de radicalização, que pode ser entendido como um resultado da “fandomização” da sociedade — um comportamento similar ao de grupos de fãs, com posições intransigentes e idolatria de ideias ou figuras públicas.

A Religião e o Futebol: O Início da Radicalização

A influência dos algoritmos começou a ser percebida inicialmente em debates religiosos e na cultura do futebol. As plataformas de redes sociais identificaram rapidamente que conteúdos que evocam emoções intensas, como paixão ou raiva, têm maior probabilidade de gerar engajamento. No contexto religioso, discursos que atacam outras religiões, são mais compartilhados, criando bolhas sociais de reforço positivo que aumentam a intolerância e o sentimento de exclusão. O futebol, por sua vez, não apenas une torcedores, mas também fomenta rivalidades que se tornaram mais acirradas com a viralização de provocações e memes nas redes sociais. Assim, a competição saudável e a discussão racional sobre esporte deram lugar ao ódio e à intolerância.

A Radicalização Política e a Dualidade

A partir dessa base estabelecida, a política se tornou o campo mais afetado pelos algoritmos das redes sociais. O processo de polarização política é descrito por diversos acadêmicos e pesquisadores como um fenômeno amplificado pela atuação das redes sociais. Segundo um estudo publicado pela University of Southern California em 2020, os algoritmos do Facebook e do Twitter são projetados para mostrar aos usuários conteúdos que reforcem suas crenças existentes, criando um efeito de “câmara de eco”. Assim, a capacidade de visualizar e discutir opiniões divergentes é reduzida, levando à criação de bolhas ideológicas onde cada grupo vê o “outro lado” como inimigo.

Essa dualidade reforçada pela lógica binária dos algoritmos gera uma visão dicotômica do mundo: bem contra o mal, certo contra errado, nós contra eles. A complexidade dos problemas sociais e políticos é reduzida a questões simplistas e polarizadoras, que evitam qualquer tipo de nuance ou meio-termo. Como resultado, ideias políticas passam a ser defendidas não mais por sua viabilidade, mas pela capacidade de se alinhar aos valores da tribo, criando um ambiente hostil a diálogos e compromissos.

Fandomização e o Fim da Racionalidade

A “fandomização” da sociedade é um processo que transforma debates em espectáculos emocionais e irracionais. O termo “fandom” geralmente é usado para descrever comunidades de fãs apaixonados por um artista ou obra. Entretanto, as redes sociais aplicaram esse mesmo conceito à política e outros aspectos da vida social. Pesquisas mostram que o comportamento dos grupos online que discutem política frequentemente se assemelha ao comportamento de torcidas de futebol ou fãs de celebridades. Um estudo publicado na revista Journal of Social Media Studies, em 2021, afirma que a lealdade cega e a resistência a argumentos contrários são características comuns entre os participantes desses grupos. A “fandomização” não promove a discussão saudável e crítica de ideias, mas sim a idolatria e a defesa irracional.

Por trás desse fenômeno estão os algoritmos das redes sociais, que premiam emoções e polarizações. Conteúdos que causam raiva, surpresa ou euforia tendem a ser mais disseminados do que aqueles que promovem reflexão e ponderação. Como consequência, a tomada de decisões se torna cada vez mais emocional e menos racional. Artigos da MIT Technology Review destacam que os algoritmos do YouTube, por exemplo, tendem a sugerir vídeos cada vez mais extremos para manter a atenção dos usuários, levando-os a acreditar em teorias da conspiração e discursos de ódio, conforme relatado em uma pesquisa realizada em 2019.

Crítica à Dualidade e aos Extremos

A questão da dualidade e dos extremos se torna particularmente prejudicial em sociedades que exigem a convivência pacífica de diferentes grupos sociais e políticos. Ao fomentar uma visão polarizada, os algoritmos dificultam o reconhecimento da legitimidade de opiniões contrárias. Além disso, a lógica de “amigos versus inimigos” impede que se busquem soluções colaborativas para problemas sociais complexos, que exigem mais do que respostas simplistas. Em vez de fomentar a compreensão e a busca por consensos, as redes sociais criam um ambiente tóxico, onde o objetivo é vencer o adversário, e não solucionar questões em benefício de todos.

A cultura do debate saudável dá lugar ao embate, ao desprezo pelas opiniões alheias e à construção de um senso de superioridade moral. A presença constante de conteúdo que reforça nossas crenças e ataca qualquer ideia oposta nos deixa mais confiantes em nossas próprias posições, mesmo que elas sejam errôneas ou infundadas. Essa confiança exacerbada alimenta a ignorância e o preconceito, e os algoritmos continuam retroalimentando essas crenças, dificultando ainda mais a mudança de perspectiva.

Desta forma , o ambiente digital, ao invés de fomentar debates saudáveis e enriquecedores, tem dado lugar ao embate e ao desprezo pelas opiniões contrárias. Isso cria um ciclo de reforço de crenças pessoais, onde as pessoas se tornam cada vez mais seguras de suas próprias opiniões, mesmo que não tenham base sólida. Esse fenômeno é intensificado pelos algoritmos das redes sociais, que priorizam mostrar conteúdos que confirmam o que o usuário já acredita, limitando a exposição a novas perspectivas.

Essa dinâmica contribui diretamente para o surgimento da cultura do cancelamento. Na internet, as pessoas se veem cada vez mais envolvidas em grupos que compartilham as mesmas ideias e, assim, se tornam menos tolerantes com opiniões divergentes. Quando alguém expressa algo que é considerado “fora do consenso”, especialmente em questões sensíveis, a reação pode ser intensa e imediata. O cancelamento, então, se torna uma espécie de “justiça” moral, onde os indivíduos ou grupos tentam punir alguém por opiniões ou comportamentos vistos como inadequados. Esse comportamento reflete o radicalismo da web, no qual, ao invés de dialogar e tentar entender outras perspectivas, se busca eliminar a voz discordante. É um reflexo direto da confiança exacerbada e da intolerância alimentada pelo funcionamento dos algoritmos e pela bolha de confirmação em que muitos usuários se encontram.

Caminhos Possíveis

O fenômeno da radicalização algorítmica não é um problema de fácil solução. Alguns especialistas argumentam que a regulamentação das redes sociais pode ajudar a mitigar o problema, por meio da transparência nos algoritmos e da promoção de conteúdos que estimulem o diálogo construtivo. A European Digital Services Act, que visa aumentar a responsabilidade das plataformas digitais em relação ao conteúdo que elas promovem, é um exemplo de tentativa de combater os efeitos negativos dos algoritmos.

Além disso, a educação digital e o desenvolvimento de um senso crítico na utilização das redes sociais são essenciais para lidar com essa questão. Em vez de assumir que as plataformas irão mudar, é mais viável educar os usuários a reconhecerem quando estão sendo manipulados e a buscarem uma diversidade maior de informações, reduzindo a influência dos algoritmos sobre suas visões de mundo.

Conclusão

A radicalização da sociedade é um fenômeno alimentado pelos algoritmos das redes sociais, que priorizam conteúdos polarizadores e emocionais em detrimento da complexidade e do debate racional. A dualidade promovida pelas redes sociais simplifica as discussões sociais e políticas em questões de preto e branco, enquanto a “fandomização” promove a idolatria de ideias e figuras, e desencoraja a reflexão crítica. É urgente que se encontre um equilíbrio entre a liberdade das plataformas e a responsabilidade social, para que as redes sociais não sejam catalisadores de uma sociedade cada vez mais dividida e menos disposta ao diálogo.
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Aqui estão os links das fontes mencionadas:

1. [A INFLUÊNCIA DAS REDES SOCIAIS NAS PRÁTICAS RELIGIOSAS](https://revista.batistapioneira.edu.br/index.php/rbp/article/view/90
2. [“Deus, Pátria, Família e Liberdade”: a radicalização política no ecossistema de mídia evangélica digital no Brasil](https://periodicos.uff.br/midiaecotidiano/article/view/59933
3. [RELIGIÃO E MÍDIAS SOCIAIS: A DISSEMINAÇÃO DO DISCURSO RELIGIOSO NO FACEBOOK](https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/panorama/article/download/4326/2488
4. [Como o discurso de ódio e o extremismo se propagam online](https://odioouopiniao.mdh.gov.br/como-o-discurso-de-odio-e-o-extremismo-se-propagam-online/
5. [A religião como arma política e a radicalização de um dos polos](https://www.canalmeio.com.br/edicoes/2024/06/26/a-religiao-como-arma-politica-e-a-radicalizacao-de-um-dos-polos/)

Citations:
[1] A INFLUÊNCIA DAS REDES SOCIAIS NAS PRÁTICAS RELIGIOSAS https://revista.batistapioneira.edu.br/index.php/rbp/article/view/90
[2] a radicalização política no ecossistema de mídia evangélica … https://periodicos.uff.br/midiaecotidiano/article/view/59933
[3] [PDF] RELIGIÃO E MÍDIAS SOCIAIS: A DISSEMINAÇÃO DO DISCURSO … https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/panorama/article/download/4326/2488
[4] Gordofobia é discurso de ódio, sim https://odioouopiniao.mdh.gov.br/como-o-discurso-de-odio-e-o-extremismo-se-propagam-online/
[5] A religião como arma política e a radicalização de um dos polos https://www.canalmeio.com.br/edicoes/2024/06/26/a-religiao-como-arma-politica-e-a-radicalizacao-de-um-dos-polos/
[6] Ódio e intolerância nas redes sociais digitais – SciELO https://www.scielo.br/j/rk/a/3LNyLswf9rkhDStZ9v4YT3H/
[7] [PDF] INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E REDES SOCIAIS: NOVOS … https://www.jackbran.com.br/lumen_et_virtus/numero_18/PDF/INTOLERANCIA%20RELIGIOSA%20E%20REDES%20SOCIAIS.pdf
[8] [PDF] O fenômeno da internet na religião oral: a influência das mídias sociais … https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/download/48147/29123/149493