A polarização política não como um “acidente” ou mera “falta de diálogo”, mas como um fenômeno estrutural com beneficiários concretos. Ela não surge do nada: é produzida, amplificada e mantida por mecanismos institucionais, econômicos e simbólicos que têm donos e lógicas bem definidas. Vou separar a análise em três planos — global, brasileiro e trans-histórico — para mostrar a quem, de fato, “interessa” (cui bono).
1. Plano global: quem lucra com a fragmentação das sociedades?
Sociologicamente, a polarização é um regime de acumulação de atenção. As grandes plataformas digitais (Meta, Google, TikTok, X) transformam o ódio em commodity: quanto maior o engajamento emocional (raiva, medo, nojo), maior o tempo de tela, maior o valor dos anúncios. Estudos de economia política da comunicação (Zuboff, Couldry, Van Dijck) mostram que o “capitalismo de vigilância” não sobrevive sem afetos negativos intensos. A polarização é o combustível perfeito.
Antropologicamente, ela ativa o mecanismo tribal ancestral que a evolução nos legou: o “nós vs. eles” reforça identidade de grupo e coesão interna, mas a custo da cooperação intergrupal. Quando esse mecanismo é escalado por algoritmos, ele vira indústria cultural. Os beneficiários não são “o povo de direita” ou “o povo de esquerda”, mas os gatekeepers que controlam o fluxo de símbolos: influenciadores profissionais, agências de marketing político, consultorias de micro-targeting e fundos de venture capital que investem em “conteúdo engajado”.
Historicamente, desde o Império Romano (“divide et impera”) até a Guerra Fria, quem detém poder central sempre soube que uma sociedade rachada é mais fácil de governar. Hoje, os grandes beneficiários globais são:
Elites políticas transnacionais que não precisam mais propor projetos de futuro — basta demonizar o adversário.
Setores econômicos que lucram com insegurança (armas, segurança privada, energia fósil, farmacêutica de ansiedade/depressão).
A própria “classe cognitiva” internacional (think tanks, ONGs, universidades de elite) que vive de diagnosticar, estudar e “combater” a polarização que ela mesma ajuda a reproduzir.
2. Plano brasileiro: uma polarização com dono claro
No Brasil, o fenômeno não é cópia fiel do modelo americano; tem sabor local. Desde o impeachment de 2016, a polarização PT × anti-PT (depois Bolsonaro × Lula) deixou de ser disputa ideológica e virou mercado político-emocional altamente lucrativo.
Quem ganha concretamente?
a) Os próprios partidos e lideranças de ambos os extremos
A polarização permite que lideranças medianas se eternizem no poder sem prestar contas de resultados concretos. Enquanto o debate for “Lula ladrão” ou “Bolsonaro genocida”, ninguém pergunta por que o Brasil continua com 30% da população na informalidade, por que a produtividade é estagnada há 40 anos ou por que a carga tributária recai majoritariamente sobre o consumo. O inimigo externo justifica a permanência no poder.
b) A indústria de mídia e conteúdo
Em 2018–2022, canais de YouTube, Telegram e WhatsApp de ambos os lados multiplicaram faturamento com superchats, anúncios políticos e doações. Jornais e TVs tradicionais também: audiência e assinaturas digitais explodiram com cada crise. A polarização salvou economicamente vários veículos que, sem ela, estariam em crise terminal.
c) O setor de marketing político e consultorias
Empresas como Cambridge Analytica (e suas versões brasileiras) cobram fortunas para segmentar eleitores por medo e raiva. Campanhas caras viraram rotina; quanto mais polarizado o país, mais caro (e lucrativo) fica o serviço.
d) Elites econômicas que preferem distração a reforma
Quando a classe média baixa e a trabalhadora brigam por símbolos culturais (religião, sexualidade, armas, aborto), elas não brigam por reforma tributária progressiva, taxação de grandes fortunas ou regulação do capital especulativo. A polarização funciona como cortina de fumaça perfeita para quem não quer mexer na distribuição de renda extremamente concentrada que o Brasil carrega desde o século XIX.
e) Interesses geopolíticos externos
Não é “teoria da conspiração”: China, Rússia, EUA e até Irã investem em influência digital em todos os países do Sul Global. Uma sociedade brasileira rachada é um país mais fraco nas negociações comerciais, na defesa da Amazônia e na política externa autônoma. Quem ganha com um Brasil paralisado? Quem quer recursos baratos e mercado consumidor fragmentado.
3. A lição histórica e antropológica final
A história mostra que sociedades muito polarizadas raramente resolvem seus problemas estruturais — Roma, Weimar, Iugoslávia, Venezuela recente. A antropologia demonstra que o ser humano precisa de narrativas compartilhadas para cooperar em escala; quando essas narrativas são destruídas, o capital social colapsa e o poder se concentra nas mãos de quem controla a narrativa dominante.
Portanto, a polarização não interessa “ao povo”, nem à “direita”, nem à “esquerda” como blocos homogêneos. Ela interessa estruturalmente a:
quem vive do conflito (mídia, plataformas, marqueteiros);
quem se mantém no poder graças ao conflito (lideranças extremas);
quem evita redistribuição de riqueza e poder graças ao conflito (elites econômicas e cognitivas).
O resto da sociedade — a imensa maioria — paga a conta em saúde mental destruída, instituições enfraquecidas, violência crescente e estagnação econômica. Como Durkheim já alertava no século XIX: quando o laço social se rompe, não há “vencedores”; só há anomia e, depois, autoritarismo ou colapso.
A polarização não é acidente. É negócio. E o negócio está indo muito bem — para poucos. Para todos os outros, é um custo social que já dura tempo demais.
Bibliografia on-line:
Capitalismo de vigilância, economia da atenção e lucro das plataformas (Zuboff, Couldry, Van Dijck)
José van Dijck – “Datafication, dataism and dataveillance” (Surveillance & Society, 2014)
PDF completo gratuito: https://ojs.library.queensu.ca/index.php/surveillance-and-society/article/view/datafication
Fundamenta: como as plataformas transformam raiva/medo em commodity (capitalismo de vigilância). É o texto clássico que embasa Couldry e Zuboff.
Artigo brasileiro sobre capitalismo de vigilância e economia da atenção (Revista Brasileira de Biblioteconomia, 2022)
PDF direto: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/download/1910/1438/6936
Cita Zuboff explicitamente e explica o modelo de negócios das plataformas.
“Capitalismo de vigilância e tecnopolítica” (Dialnet, 2021)
PDF direto: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8086972.pdf
Análise jurídica e sociológica do conceito de Zuboff aplicado ao Brasil.
2. Como o ódio ao “inimigo” gera mais engajamento e lucro (global + Brasil)
Rathje, Van Bavel & van der Linden – “Out-group animosity drives engagement on social media” (PNAS, 2021)
Texto completo gratuito: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2024292118
Estatística chave: posts que atacam o adversário político são compartilhados 2 vezes mais e geram maior receita de anúncios. É o estudo mais citado sobre o “negócio do ódio”.
“The birth of the Brazilian technoconservative ecosystem and the convergence of the attention economy with the culture war” (Academia.edu, 2025)
PDF completo: https://www.academia.edu/127624159/The_birth_of_the_brazilian_technoconservative_ecosystem_and_the_convergence_of_the_attention_economy_with_the_culture_war
Mostra como canais brasileiros monetizam exatamente esse mecanismo (WhatsApp, YouTube, Instagram).
3. Custos de propaganda e campanhas no Brasil (TSE oficial – estatísticas exatas)
Portal de Dados Abertos do TSE (todos os gastos de 2018, 2022 e 2024)
https://dadosabertos.tse.jus.br/
Baixe os CSVs de “Prestação de Contas Eleitorais”.
Estatísticas reais:
– 2018: R$ 3,1 bilhões totais
– 2022: mais de R$ 5 bilhões (aumento de ~60% com polarização + impulsionamento digital).
Gastos com internet/redes sociais saltaram de R$ 77 milhões (2018) para mais de R$ 200 milhões (2022).
DivulgaCandContas (consulta pública direta)
https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/
Mostra gasto individual por candidato/partido (propaganda, consultoria, superchats etc.).
SciELO – “O custo da política subnacional” (2016, atualizado em análises posteriores)
PDF direto: http://www.scielo.br/j/op/a/BLSkPvJy45gJKMkwbmK5Kvy/?format=pdf&lang=pt
Mostra como o dinheiro de campanha é gasto e por que a polarização eleva os custos.
SciELO – “Ênfase seletiva e interação estratégica: propaganda eleitoral 2022”
PDF direto: https://www.scielo.br/j/op/a/nNDjKmkr8rPPmN6SB5pXvbc/?lang=pt&format=pdf
Analisa como o horário gratuito e o digital se alimentam da polarização.
4. Monetização de canais políticos (YouTube, Superchat, Telegram)
Inquérito dos Atos Antidemocráticos (PF, documentos públicos vazados no Intercept)
https://theintercept.com/document/inquerito-atos-antidemocraticos/
Exemplos concretos: canais bolsonaristas declararam R$ 2 mil a R$ 5 mil/mês só de superchat + monetização YouTube; um único canal recebeu R$ 53 mil em doações.
Teses acadêmicas com dados agregados (USP e UFMG)
Exemplo: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27164/tde-21012025-184604/publico/FilipeViliciccorrigidaPPGCOM11935981.pdf
Analisa faturamento de influenciadores políticos.
5. Polarização como distração de reformas econômicas + Durkheim (anomia)
SciELO – “As Flutuações de Longo Prazo da Polarização no Brasil”
PDF: https://www.scielo.br/j/dados/a/R7CjTc36wwQ8JRqJXD3qTRt/
Mostra como o debate cultural (Lula × Bolsonaro) substitui discussão sobre desigualdade e produtividade estagnada.
Émile Durkheim – “A Divisão do Trabalho Social” (edição domínio público)
Versão completa gratuita (tradução brasileira ou original em francês): disponível no Internet Archive ou Project Gutenberg (busque “Durkheim Division of Labor in Society PDF free”).
Capítulo final sobre anomia explica exatamente o colapso do laço social por polarização excessiva.
6. Livro gratuito completo sobre o tema no Brasil
Política Brasileira Contemporânea (UFF, 2023)
PDF inteiro gratuito (capítulos sobre polarização, redes e bolsonarismo): https://ichf.uff.br/wp-content/uploads/sites/121/2023/08/LIVRO-POLITICA-BRASILEIRA-CONTEMPORANEA-versao-ebook.pdf