A humanidade, ao longo de sua jornada, sempre oscilou entre a fragmentação e a unidade. Hoje, contudo, nos encontramos em uma encruzilhada sem precedentes. Nunca estivemos tão conectados, e, paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes. A polarização mundial, o sectarismo ideológico e o tribalismo digital erguem muros invisíveis entre nós. A grande pergunta que ecoa é: como chegamos a este ponto? Não acreditávamos na evolução? Não seria a razão nossa bússola, guiando-nos para uma civilização mais unificada e avançada?
Nenhuma filosofia, nenhuma ciência social conseguiu até agora dar uma resposta satisfatória para a dissolução do “ideal humano”. O que antes unia as pessoas em torno de valores comuns agora se desfaz em um turbilhão de interesses particulares, manipulados por forças que fogem à percepção consciente. Quem se beneficia dessa fragmentação, senão as elites que sempre souberam que um povo dividido é um povo facilmente controlado? A humanidade, outrora impulsionada por sonhos de progresso e comunhão, encontra-se agora estilhaçada em microcosmos de identidades e crenças, cada qual aprisionado em sua bolha cognitiva.
O radicalismo global não emergiu do acaso, tampouco é um simples produto de conflitos ideológicos. Ele é um fenômeno amplificado e, em muitos casos, deliberadamente promovido por algoritmos de neuromarketing. Criados para vender produtos explorando nossas emoções mais instintivas, esses sistemas passaram a moldar nossas percepções de mundo. As redes sociais, originalmente projetadas para aproximar amigos, foram cooptadas para algo muito maior e mais sinistro: não apenas vendem mercadorias, mas também vendem narrativas, identidades e até mesmo pessoas. Vivemos em um mundo onde a atenção humana é a mercadoria mais valiosa e, para capturá-la, a divisão se tornou a ferramenta mais eficiente.
O que antes era um meio para impulsionar o consumo tornou-se um mecanismo para manipular a própria condição humana. O neuromarketing, ao dominar nossas emoções, reduziu nossa capacidade de tomar decisões racionais. Como peças em um tabuleiro invisível, somos conduzidos não pela lógica, mas pelo apelo visceral das emoções exacerbadas. A era digital, que prometia democratizar o saber e fomentar a conexão, tornou-se um campo de batalha onde cada um se entrincheira em sua visão de mundo, incapaz de dialogar com o outro.
E assim, como torcidas organizadas sem controle, as massas vagam à deriva nesse caos digital. Somos arrastados por tempestades de desinformação, impulsionados por narrativas calculadas para inflamar e dividir. O “admirável mundo novo digital” não apenas reconfigurou a sociedade; ele sequestrou nossa própria humanidade. O ser humano, antes regido pelo equilíbrio entre razão e emoção, tornou-se um fantoche de estímulos que não compreende, e que, muitas vezes, sequer percebe que o controlam.
Mas ainda há tempo. Se compreendermos o processo, se despertarmos para a manipulação que nos mantém fragmentados, poderemos reverter esse curso. A unidade na diversidade humana não é um conceito utópico; é uma necessidade de sobrevivência. Precisamos, mais do que nunca, de uma nova coalizão da humanidade, que transcenda as barreiras ideológicas e resgate o essencial: a nossa capacidade de pensar, de dialogar, de sentir e de escolher um futuro que nos una, em vez de nos separar. O primeiro passo é reconhecer que não somos adversários, mas parte de uma mesma espécie, com um destino compartilhado. A questão que nos resta é: teremos coragem para retomar o controle de nossa própria humanidade?