Por que me tornei médico?
A decisão de ser médico sempre esteve atrelada a algo maior do que apenas uma carreira. Desde cedo, senti um chamado para servir, para estar onde as pessoas mais precisavam, seja no meu país ou em terras distantes. Por ter sido doente e viver em hospital quando criança, uma das profissões que passei a admirar era a medicina. O que vai ser quando crescer? Eu falava : médico.
Durante minhas viagens missionárias pelo Brasil no Nordeste, Norte Sudeste , e sul do Brasil e pelo mundo, na Índia, África e Asia , pude ver de perto a dura realidade de populações que não têm acesso aos cuidados básicos de saúde. Seja em locais rurais ou locais urbanos.
Foi nessas viagens que aprendi que a medicina vai muito além de diagnósticos e tratamentos: ela é uma forma de restaurar vidas, de dar esperança e dignidade. Descobri recentemente que meu pai que me criou com dificuldade,havia ficado frustrado por eu não ter tido uma vida de ‘doutor’ quando mais jovem.
Minha opção pela missão foi um choque para ele. Entretanto Jamais poderei esquecer os rostos das pessoas que conheci, seja em aldeias isoladas e comunidades esquecidas, ou em centros urbanos emprobrecidos, onde, muitas vezes, éramos a única chance de socorro.
Lembro me dê Moçambique que tinha sido devastada por uma guerra civil foi marcada por extrema violência, deslocamento de populações e uma devastação massiva da infraestrutura do país afetando milhões de pessoas.
O conflito terminou em 1992 com o Acordo Geral de Paz, no entanto, a guerra deixou cicatrizes profundas na sociedade moçambicana e impactos duradouros na economia e infraestrutura do país.
Ali, a medicina não era apenas técnica; era um ato de fé, um encontro de almas, um compartilhar de humanidade.
Lembro-me de orar com muitos daqueles que, em meio a tanta dor, encontravam conforto nas palavras de Jesus, o Médico dos médicos, que disse: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mateus 9:12). Essas palavras sempre me deram forças para seguir, mesmo diante de tantos desafios.
No campo missionário entendi o que era ser ‘interdisciplinar’. O convívio com vários outros colegas de diversas profissões e especialidades deram uma perspectiva concreta do saber compartilhado.
Entretanto, a vida tomou um rumo inesperado. Em meio a tantas jornadas, fui confrontado com uma das maiores provações que um médico pode enfrentar: a enfermidade dentro de minha própria família. Ver aqueles que amo precisarem de cuidados me fez pausar as viagens missionárias. Foi um momento de dor, mas também de aprendizado profundo. Passei a entender, ainda mais, o valor da presença e do cuidado no lar, onde muitas vezes as batalhas mais difíceis são travadas.
Mesmo que minhas viagens tenham cessado temporariamente, meu desejo de servir nunca se apagou. Hoje, continuo a jornada, não mais apenas nas terras distantes, mas também onde estou, com a certeza de que, onde houver dor, sempre haverá espaço para o amor e o cuidado.
A medicina, para mim, sempre será mais do que uma profissão. É um compromisso de vida, uma entrega ao próximo, seja em missões ou em momentos silenciosos dentro de casa. E, assim como Jesus curava os doentes, acredito que cada um de nós pode ser instrumento de cura em qualquer lugar que estejamos.
Agora, olhando para o futuro, vejo um mundo repleto de tecnologia e ciência avançada, com conhecimento infinitamente superior ao tempo que me graduei em 1987. Entretanto ainda marcado por tanta dor e necessidade. Guerras, pobreza e falta de acesso a cuidados básicos continuam a atormentar milhões. Com tudo o que conquistamos, ainda há um vasto caminho pela frente para levar esperança aos que mais precisam.
Por isso me despeço usando as palavras da Bíblia sobre Lucas que inspirou a celebração do dia do médico:
Col 4:14 Saúda-vos Lucas, o médico amado, e também Demas.












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