PORQUE A IGREJA DEVE AJUDAR NO COMBATE AO AEDES EGYPTI?
Nestes últimos dias ligamos a televisão, olhamos as redes sociais e somente ouvimos notícias ruins;Problemas sociais, corrupção política, inflação chegando de volta, novas epidemias, dentre outras situações tão sérias que as vezes apagam a razão de ser da Igreja , que é a de espalhar boas novas, boas notícias.
Este é um desafio para toda a Igreja no Brasil : todo aquele que se diz cristão a ajudar a nossa nação nesses tempos difíceis como agente de transformação. Dentre tantas notícias ruins, como médico vou comentar a questão das epidemias virais recentes no Brasil e como a Igreja pode portar boas novas neste contexto de saúde;
Dengue , febre chikungunya e zika vírus. O que elas têm em comum além de serem doenças virais e que apresentam manchas vermelhas no corpo e febre?, O que isso tem a haver com a Igreja? Porque são um desafio missionário para a Igreja de hoje?
O transmissor de todas estas doenças é mosquito Aedes aegypti. Qual a importância deste mosquito?
O primeiro brasileiro que se empenhou muito em combater esse mosquito foi Osvaldo cruz no início do século XX. Ou seja, historicamente este mosquito já foi derrotado, mas retornou mais de cem anos depois.
Provavelmente a maioria das pessoas pensam que Osvaldo Cruz teria criado uma vacina contra febre amarela. Na verdade ainda nem se conhecia o vírus na época. Osvaldo Cruz teve que enfrentar preconceitos de médicos e da população para empreender um projeto de eliminação de mosquitos para provar que eles eram os transmissores da terrível doença que matava brasileiros e viajantes que por aqui passavam no Rio de Janeiro. Esse é o mesmo mosquito que transmite Dengue , febre chikungunya e zika vírus.
Vamos rever um pouco da história desse combate ao mosquito:
Ao combater a febre amarela, na mesma época, Oswaldo Cruz enfrentou vários problemas. Grande parte dos médicos e da população acreditava que a doença se transmitia pelo contato com as roupas, suor,sangue e secreções de doentes. No entanto, Oswaldo Cruz acreditava em uma nova teoria: o transmissor da febre amarela era um mosquito. Assim,(,,,) implantou medidas sanitárias com brigadas que percorreram casas, jardins, quintais e ruas, para eliminar focos de insetos. Sua atuação provocou violenta reação popular. http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/Biograf/ilustres/oswaldocruz.htm
Porque essa teoria de eliminar mosquitos é tão importante para nós? Não foi um médico mas um pastor missionário norte americano que introduziu a Osvaldo Cruz à pesquisa que faria diferença na sua atitude a frente do posto de diretor de saúde do Brasil ( cargo assemelhado a secretario/ministro de saude)
Hugh Clarence Tucker foi um pastor Metodista que serviu como agente da Sociedade Biblica Norte americana e que ajudou a distribuir bíblias no Brasil e um projeto de correção da Bíblia em português. Rev. Tucker também ficou conhecido na época pela sua participação na criação do hospital evangélico e na criação de um centro social na área do morro da providência e um play ground na Quinta da Boa vista. Rev. Tucker teve a infelicidade como diversos outros missionários americanos no Brasil de contrair a febre amarela,não apenas ele mas sua esposa e filho. Isso o afetou muito o que o levou a pensar em uma forma de acabar com essa situação. Relata ele em suas memorias;
“Quando cheguei ao Brasil, encontrei problemas sociais de natureza muito mais séria. A escravidão ainda predominava e concepções modernas humanizações estavam ausentes em setores como saneamento,saúde publica, cuidados com as crianças e tratamentos dos criminosos.”(…)“Febre amarela não era a única epidemia no Brasil. (…)a mortalidade infantil era alta de modo a ser alarmante; (…)Pouco ou nada estava sendo feito a respeito destas coisas. Saneamento e método ou eram desconhecidos ou negligenciados. (…).” autobiografia
Perguntava-se ainda Tucker em sua biografia:
“Mas o que podia ser feito a respeito da temível devastação da febre amarela? “ Ele já tinha dito anteriormente “(…)Alguem com meu “background” e treinamento não podia deixar escapar a convicção de que como um ministro cristão eu era chamado a fazer alguma coisa a respeito disso.”
Perguntava-se um homem que ele mesmo já tinha sido contaminado pela febre amarela assim como sua esposa e filho. Essa pergunta deveria ecoar em nossa mentes hoje. Continua dizendo Tucker;
“Em 1901 (…) eu li a respeito das investigações levada o efeito em Cuba e os notáveis resultados foram conseguidos pelos doutores Walter Reed, Carlos J. Finley, (,,,)e James Carroll. (…) encontramos Mrs. Blincoe, irmã do Dr. Reed a quem nos relatamos nossas experiências como vitimas da febre amarela (…).
“Não foi possível, na época arranjar um encontro com Dr. Reed,(…) recebi uma carta do Dr. Reed na qual ele expressava interesse em nossos problemas e oferecia cooperação completa. Ao mesmo tempo ele mandou cópias da literatura então encontrada, incluindo “A Etiologia da Febre Amarela” e “observações e pesquisas”.”
Esse foi um ponto fundamental no combate à febre amarela no Brasil e no combate ao Aedes; Continua dizendo Tucker que “O Dr. Osvaldo Cruz distinto medico e cientista (…) era presidente da junta Medica Publica. Transmiti para ele as cartas e documentos recebidos do Dr. Reed ,consegui mais literatura para ele de Washington, e por dois anos correspondia sem favor com o Dr. Reed e seu sucessor, Dr. Carroll. O Dr. Cruz freqüentemente mandava as traduzir e publica e publicava.”(…)O Dr. Cruz delineou um plano de ação e organizou uma campanha contra a febre amarela, por minha sugestão e publicou um folheto indicando o que era necessário, em matéria de cooperação publica e colocou-o em todas as casas da cidade.”
Tucker sabia das dificuldades de Osvaldo Cruz e confessa que sua parte ( Tucker) “foi somente à correspondência com a América e transmissão de cartas e materiais com palavras de encorajamento ao Dr. Cruz. Mas isto me deu prazer e um sentimento de gratidão que eu pudesse cooperar no que eu via como uma aplicação do Evangelho de meu Mestre às necessidades de uma grande raça.”(…)
(…)Dr. Cruz iniciou sua campanha em 20 de abril de 1903. Naquele ano houve 584 mortes de febre amarela. No ano seguinte houve só 84 mortes. Em 1908 houve 5 mortes, depois do que a doença foi declarada erradicada da capital do Brasil. “Eu me congratulo com você de todo coração, contra a febre amarela”, (…)escreveu o Dr. Carroll, sucessor do Dr. Reed, que havia falecido, em uma de suas cartas para mim, e deu-me prazer de transmitir esta e outras mensagens de congratulações dos Estados unidos para o Dr. Cruz e seus associados que tinham vencido a batalha.(…)
Você poderia dizer , já estou fazendo a minha parte, estou orando. Seria essa a apenas essa a verdadeira função da igreja neste momento? Será que estamos aqui no Brasil apenas para fazermos programas de TV, cantarmos músicas bonitas de louvor ou sairmos em passeatas dos mais diferentes tipos? Será que existe algo que possa ser feito pela Igreja no Brasil que realmente faça a diferença nessa geração? Se a Igreja no Brasil acreditar que sua única função é pensar no reino futuro nos céus então nada precisa fazer a não ser orar, mas se acreditarmos que devemos e podemos fazer algo para mudar a realidade através de boas novas , O que nos falta para entrarmos nesta guerra como Igreja? Hoje em dia temos mais tecnologia ,conhecimento e comunicação que 100 anos atrás. Temos milhões de Tuckers em potencial no Brasil.
Tucker nos responde do porque dele se envolver neste tipo de trabalho social:
(…)”Frequentemente me perguntam quando e como me tornei interessado no moderno “evangelho social”. A pergunta não pode ser respondida, pois tal interesse é inseparável do desenvolvimento de minha atitude cristã e minha carreira desde o início.”(…)
Jesus usou grande parte do tempo dele curando as pessoas. Os primeiros hospitais da humanidade foram os hospitais da Igreja. Hospital vem de hospitalidade.Neste país e em outros países já tivemos mostras de que a Igreja e os cristãos podem e devem se envolver de diversas formas diferentes para ser testemunha e trazer boas novas como no combate a escravidão, racismo. Albert Schweitzer ou Hudson Taylor e o próprio Rev Tucker.
Quais são as recomendações da OMS e do ministério da saúde no combate a estas doenças; Dengue , febre chikungunya e zika vírus 100 anos depois de Osvaldo Cruz?
“Não existem medidas de controle específicas direcionadas ao homem, uma vez que não se dispõe de nenhuma vacina ou drogas antivirais.”
Ou seja as condições continuam as mesmas que na época de Osvaldo cruz:
(…) Portanto, a forma mais eficaz de se prevenir é combatendo o Aedes aegypti, diminuindo ao máximo o número de focos. (…) A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro lançou a campanha 10 Minutos Salvam Vidas para incentivar a população a tirar 10 minutos por semana para eliminar os possíveis focos do mosquito em suas casas.
Na época de Tucker e Osvaldo Cruz a questão crucial era combater os “mosquitos mortíferos”.
(…)desde 1849. As condições e os hábitos do povo eram favoráveis a reprodução e o problema era destruir o local de reprodução e fontes de suprimento. Desde muito tinha sido costume de cercar lotes e casas emboçadas com cimento e de cacos de garrafas de cerveja quebradas (…) A água contida nos pequenos receptáculos nestas paredes era uma fonte prolífica de insetos. Dr. Cruz ordenou que se retiradas de todas as carreiras com cimento e vidro e substitui-las com cimento liso. Latas velhas e lixo em quintais e lotes vazios foram removidos. (…)Para conseguir a aprovação e cooperação do povo no ataque em todas essas coisas requeria muita habilidade e paciência. (…) Biografia.
O ministério da saúde ainda afirma 100 anos depois que o controle é apenas dos mosquitos transmissores:
Prevenção domiciliar
“Diminuir a quantidade de mosquitos através da (…) eliminação da possibilidade de contato entre mosquitos e água armazenada em qualquer tipo de depósito, (…) por intermédio do uso de telas/capas ou mantendo-se os reservatórios ou qualquer local que possa acumular água, totalmente cobertos.Nos locais com muitos casos ou alertas (,,,) a proteção individual por meio do uso de repelentes deve ser implementada pelos habitantes.(…) Individualmente, usar roupas que cubram o máximo possível do corpo durante o dia além do uso repelentes na pele exposta ou nas roupas.”
Prevenção na comunidade
“Na comunidade deve-se basear nos métodos realizados para o controle da dengue, utilizando-se estratégias eficazes para reduzir a densidade de mosquitos vetores. (…)Os programas de controle da dengue para o Ae. aegypti, tradicionalmente, têm sido voltados para o controle de mosquitos imaturos, muitas vezes por meio de participação da comunidade em manejo ambiental e redução de criadouros.”
Procedimentos de controle de vetores
O programa deve ser gerenciado por profissionais experientes, como biólogos com conhecimento em controle vetorial,(para garantir que os mosquitos não sejam resistentes)”
Tudo isso já foi realizado mais de 100 anos atrás.
Nós temos condições de criar um grande exército de milhões de“agentes comunitários da mudança”. Em 1995 estudei na India em um magnífico projeto comunitário onde existe empoderamento . Creio firmemente que se treinarmos os moradores a serem os “agentes da transformação” poderemos combater de forma eficiente estas epidemias. Não basta apenas o exército ou agentes de saúde profissionais , mas todos são convocados a serem “agentes da mudança”.
Profissionais treinarão leigos em todos os níveis incluindo comunidades se elas quiserem se envolver, e as Igrejas sempre estão em uma comunidade. Os membros da igrejas poderão ajudar a liderar esse processo de transformação da sociedade.
Ore , divulgue participe.